Image 1
flutuante
Image 2
unidos pela fé
Image 3
descontraida
Image 4
sombras
Image 5
entre grades

home

sombra impressa sobre a calçada
difícil fotografar o silêncio.
entretanto tentei. eu conto:
madrugada a minha aldeia estava morta.
não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
eu estava saindo de uma festa.
eram quase quatro da manhã.
ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
preparei minha máquina.
o silêncio era um carregador?
estava carregando o bêbado.
fotografei esse carregador.
tive outras visões naquela madrugada.
preparei minha máquina de novo.
tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
fotografei o perfume.
vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
fotografei a existência dela.
vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
fotografei o perdão.
olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
fotografei o sobre.
foi difícil fotografar o sobre.
por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
representou para mim que ela andava na aldeia de braços com maiakovski – seu criador.
fotografei a nuvem de calça e o poeta.
ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir a sua noiva.
a foto saiu legal.

(manoel de barros)